Transbordar Jesus na crise
É uma loucura odiar a vida, ou o processo de Deus, só porque passamos por dias maus. Açoitados e presos no tronco, Paulo e Silas oraram e cantaram à meia-noite, porque transbordavam Jesus. O Pr. Vitor Coutinho mostrou que seguir a Cristo é tomar a cruz, e que é na crise que aparece o que de fato transbordamos.
O Pr. Vitor Coutinho pediu que a igreja deixasse a Bíblia aberta em dois lugares: Atos 16 e Mateus 5. Ele começou com a frase de um pensador que já repetiu algumas vezes na Comunidade Cristã Zoe Maringá: é uma loucura odiar as rosas só porque uma delas já nos espetou.
Toda roseira tem espinhos
Quando era pequeno, o pastor só conhecia rosas de floricultura, de caule liso e preparadas para presente. A primeira vez que viu uma roseira de verdade, cheia de espinhos, achou que ela tinha algum defeito. Na igreja muitas vezes é assim: olhamos para o outro e achamos que a vida dele é só rosa, que a grama do vizinho é sempre mais verde, sem saber nem uma parte do que ele tem passado. Todos nós temos alvos e desafios. Muitos traçaram metas para 2024 que ficaram pelo caminho nas primeiras semanas, e logo passamos a procurar uma receita de sucesso para ter a vida do vizinho. Só que é uma loucura odiarmos a vida, ou o processo de Deus, só porque passamos por dias maus. Os dias maus não definem quem Deus é nem como Ele trabalha. O pastor citou um pastor amigo: é comum homens e mulheres de Deus perderem o seu lugar de significância porque não conseguem governar a própria alma em meio às crises. Quando tudo vai bem, é fácil ser crente. Miriã cantou e dançou depois que o mar se abriu e o exército do faraó foi derrotado, e é fácil celebrar quando vemos alguém ser liberto diante dos nossos olhos. É na dificuldade que se vê quem é crente de verdade.
Paulo e Silas no tronco
Em Atos 16, Lucas conta que uma escrava possuída por um espírito de adivinhação dava muito lucro aos seus senhores e seguia Paulo e os seus companheiros por vários dias, gritando. Paulo, indignado, ordenou em nome de Jesus que o espírito saísse dela, e ele saiu na mesma hora. Quando os senhores viram que o lucro tinha acabado, arrastaram Paulo e Silas até as autoridades. Os dois foram despidos, açoitados com varas e presos no cárcere interno, com os pés no tronco. O pastor perguntou o que nós faríamos ali: postar um story reclamando, ou perguntar onde estavam os anjos do Senhor?
Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os ouviam. (Atos 16:25)
Seria correto Paulo e Silas odiarem o ministério porque apanharam e foram presos? Jesus já tinha avisado, em Mateus 5:10-12, que são bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, e que grande é a recompensa deles nos céus. O pastor trouxe notícias da Portas Abertas, que ajuda cristãos em países onde a fé é perseguida. No norte de Bangladesh, uma menina de quatro anos, de uma família que deixou o islamismo para seguir Jesus, foi espancada junto com a mãe e os irmãos só por puxar conversa com uma vizinha. Um homem que entregava folhetos foi denunciado e está fugindo com o seu pastor, porque querem matá-los. Eles têm motivos para abandonar Jesus? Têm. Mas não abandonam.
O que você está transbordando?
A diferença está no que transbordamos. O tempo todo estamos exalando alguma coisa, e Paulo diz que somos o bom perfume de Cristo, tanto para os que são salvos como para os que se perdem (2 Coríntios 2:15). Esses irmãos entenderam o chamado de Jesus: nada mais faz sentido a não ser viver Cristo, e morrer é lucro (Filipenses 1:21). A perspectiva do verdadeiro cristão não é a terra, é o céu. O pastor citou de novo esse mesmo pastor: se você quer dormir em paz, procure uma religião; se quer seguir a Cristo, prepare-se para os conflitos da cruz.
Não imaginem que vim trazer paz à terra! Não vim trazer paz, mas espada. (Mateus 10:34)
Jesus não veio causar rebeldia dentro de casa. Ele diz que quem ama pai, mãe, filho ou filha mais do que a Ele não é digno dele, e que quem se recusa a tomar a sua cruz e segui-lo também não é (Mateus 10:34-39). Paulo e Silas tinham conhecido Jesus de verdade, e por isso não se importavam se estavam apanhando, e sim se eram dignos de segui-lo. Dois mil anos depois, o evangelho continua o mesmo: tome a sua cruz e siga-me.
Antes das portas abertas, o tronco
Logo depois veio um terremoto, os alicerces da prisão tremeram, as portas se abriram e as correntes caíram. O carcereiro ia se matar, Paulo gritou que todos estavam ali, e ele perguntou: senhores, o que devo fazer para ser salvo? O sinal do avivamento é a salvação, e o caminho para ele é arrepender-se do pecado e buscar a Jesus. Todos querem a profecia das portas abertas, mas antes delas Paulo e Silas foram açoitados. Deus poderia tê-los livrado, e às vezes livra. Mas Tiago, um dos primeiros que Jesus chamou (Mateus 4:21), foi morto à espada pelo rei Herodes (Atos 12:2). Ele não foi livrado, e estava no centro da vontade de Deus.
Quem segue Jesus está num processo de transformação, de glória em glória. Poderíamos pôr na bio do Instagram: estou em obras. Às vezes a obra parece ruína, mas é o Senhor quem está refazendo. Os filhos de Deus sabem que são mais que vencedores, e as dificuldades podem nos sacudir sem nos derrotar. Quando a azeitona é espremida, sai azeite, e um dos motivos de Deus permitir os apertos é que saia azeite de nós. O deserto não dura para sempre. Mas Jesus não é uma receita rápida nem só um alívio para a dor. O pastor confessou que é mais religioso do que a esposa, e que Jesus não quer que transbordemos religiosidade, e sim que transbordemos dele.
Por que Jesus pode pedir tudo
No tempo de Jesus, carregar a cruz pela cidade era anunciar a todos que você tinha sido condenado à morte mais vergonhosa que existia. Tomar a cruz é dizer: já não sou eu quem vive. Os sonhos, os projetos e as alegrias que não estão de acordo com o Senhor ficam para trás. Por amor dele enfrentamos a morte o dia inteiro, mas em todas essas coisas somos mais que vencedores (Romanos 8:36-37). E Jesus pode pedir isso porque fez primeiro: abriu mão da glória que tinha com o Pai antes que o mundo existisse (João 17:5) e não se apegou a ser igual a Deus (Filipenses 2:6), para ser o sacrifício perfeito por nós.
Ele também nos chama a descobrir a sua graça, e essa graça santifica. A graça de Deus se manifestou trazendo salvação e nos ensina a abandonar a impiedade e os prazeres deste mundo, e Jesus se entregou para nos purificar (Tito 2:11-14). Dizer que vai seguir a Cristo e continuar no pecado é como trair o cônjuge porque ele vai perdoar: quem faz isso não entendeu nada de amor. A amizade com o mundo é inimizade com Deus (Tiago 4:4). O pastor chamou de mentira a teologia da hipergraça, muito espalhada por influenciadores na internet, que diz que, como já fomos perdoados, podemos viver como quisermos. E perguntou: o que o Espírito Santo incomodou em você esta semana? Se nada incomodou, não há obra acontecendo.
Um convite aos improváveis
Paulo, Silas e os irmãos de Bangladesh transbordam Jesus porque se apaixonam por Ele cada dia mais. O pastor lembrou do perfume caríssimo derramado sobre Jesus, como quem gasta a poupança inteira, e de Maria Madalena, liberta de sete demônios (Marcos 16:9): diante da salvação, aquilo não era nada. Se santificar-se parece difícil, é porque a presença do Senhor ainda não tem valor para nós. O convite é amar a Jesus mais do que a própria vida e mais do que as coisas que Ele pode nos dar. O Senhor está procurando homens e mulheres improváveis, de vida destruída, para encontrar o seu amor. O pastor chamou para ficar de pé quem queria ser um vaso novo e orou com a igreja: entregar aos pés da cruz os sonhos e os planos, amar o Senhor mais do que a saúde, o dinheiro e a profissão, pedir perdão pela falta de amor e de santidade e voltar a se apaixonar por Ele. Como Paulo e Silas, mesmo acorrentados, agradecemos antes de ver as prisões abertas. Depois da oração, a igreja celebrou a Santa Ceia.
Esta ministração foi parte do culto de 4 de fevereiro de 2024. Assista ao culto completo.